Produção camponesa e seguridade alimentar no Brasil: Uma análise pela teoria da reciprocidade
Abstract
Associar a noção de segurança alimentar ao termo de campesinato implica pensar em produzir também para além das famílias camponesas; quer dizer para redistribuir ou para comercializar para a população. Por isso o campesinato “produz para viver e alimentar”. Mas como articular uma produção camponesa fundada na reciprocidade com a natureza e na solidariedade entre pares com um mercado nacional e internacional dominado e regulado pela troca mercantil? O artigo propõe, na sua primeira parte, responder a essa questão a partir dos fundamentos da antropologia econômica, mas também mobilizando elementos mais recentes da teoria da reciprocidade. Após Mauss, Polanyi teve um papel essencial com a proposta do conceito de economia substantiva e com a identificação da reciprocidade como modo de regulação da economia ao lado da troca e da redistribuição. A análise antropológica da reciprocidade foi completada nos anos 1990/2000 por Temple prolongando Mauss e Levi-Strauss com a análise das estruturas elementares da reciprocidade. Hoje, essa análise estrutural permite procurar na pesquisa empírica, a natureza dos valores materiais, também aquela dos valores afetivos e éticos produzidos pelas relações de reciprocidade, das quais alguns exemplos no meio camponês brasileiro são apresentados na segunda parte. Na terceira parte pergunto por que se interessar pelas práticas e relações de reciprocidade hoje no século XXI e examino como tais relações de reciprocidade estão presentes em situações mistas, ao lado das relações de troca mercantil